Curitiba a pé: arquitetura que conta a história da cidade
Entre hospitais, igrejas, praças e edifícios históricos, um percurso pelo centro revela como Curitiba se transformou de vila provincial em capital moderna
Caminhar pelo centro histórico de Curitiba é também percorrer diferentes momentos da formação urbana da capital paranaense. Muitos dos edifícios que hoje compõem a paisagem da região central foram construídos entre o final do século XIX e o início do século XX, período em que a cidade buscava afirmar sua condição de capital provincial e, posteriormente, estadual, inserindo-se em uma ideia de modernidade inspirada em modelos europeus.
Para celebrar o aniversário da capital paranaense, uma boa opção é percorrer um roteiro a pé pelo coração da cidade, passando por alguns de prédios emblemáticos e outros menos conhecidos de quem vem de fora. Uma caminhada pelas ruas que um dia foram de paralelepípedo, passando por igrejas, museus e edifícios que representam diversas fases da cidade pode trazer surpresas para viajantes que, em outras oportunidades, se detiveram a conhecer pontos turísticos mais famosos.
Até meados do século XIX, Curitiba ainda apresentava características de uma pequena cidade interiorana, com crescimento lento e arquitetura relativamente simples. Relatos de viajantes da época descrevem ruas pouco estruturadas e edificações modestas, refletindo uma urbanização ainda incipiente. O núcleo urbano concentrava-se principalmente no entorno da atual Praça Tiradentes, onde se organizava a malha inicial da cidade. “Foi somente a partir da segunda metade daquele século que transformações econômicas, novas regulamentações urbanas e a presença de profissionais técnicos – como engenheiros e médicos envolvidos nas questões sanitárias e construtivas – passaram a influenciar de maneira mais significativa o desenvolvimento urbano”, explica o professor de Arquitetura e Urbanismo, pesquisador e coordenador do Núcleo Paraná do DOCOMOMO, Rodolfo Marques Sastre.
Esse processo se intensificou especialmente após 1854, quando Curitiba foi elevada à condição de capital da Província do Paraná. Nas décadas seguintes, novos códigos de posturas urbanas passaram a regulamentar construções, alinhamentos e dimensões das edificações, contribuindo para uma paisagem urbana mais ordenada. “Outro marco fundamental ocorreu nas últimas décadas do século XIX com a chegada da ferrovia ligando Curitiba ao litoral paranaense. A partir desse momento, Curitiba começou a se expandir de forma mais estruturada e passou a incorporar referências arquitetônicas e urbanísticas vindas principalmente da Europa”, pontua o especialista.
É nesse contexto de transformação que surgem muitos dos edifícios históricos que hoje marcam o centro da cidade. Para celebrar o aniversário da capital paranaense, uma boa opção é percorrer um roteiro a pé pelo seu coração, passando por alguns de prédios emblemáticos e outros menos conhecidos de quem vem de fora. Uma caminhada pelas ruas que um dia foram de paralelepípedo, passando por igrejas, museus e edifícios que representam diversas fases da cidade pode trazer surpresas para viajantes que, em outras oportunidades, se detiveram a conhecer pontos turísticos mais famosos.
Para o concierge do NH Collection Curitiba, William Monte, “o centro da capital é um espaço cheio de descobertas até mesmo para quem é frequentador assíduo dessa parte de Curitiba. Sempre há algo de novo a ser aprendido sobre um edifício ou uma passagem histórica”. Ele preparou uma sugestão de percurso pelos arredores do hotel.
A Santa Casa de Misericórdia, inaugurada em 1880, e a Catedral de Curitiba, concluída em 1893, refletem o momento em que instituições fundamentais da vida urbana passaram a ganhar sedes monumentais. Poucos anos depois, o antigo Palácio da Liberdade, atual Museu da Imagem e do Som, construído em 1890, representou a consolidação das estruturas administrativas do novo estado.
Já nas primeiras décadas do século XX, a cidade continuou a expandir sua infraestrutura e sua vida cultural. Edifícios como o Paço da Liberdade, inaugurado em 1916 como sede da prefeitura, simbolizam esse período de fortalecimento institucional e urbano. Na década de 1920, com o crescimento do comércio e da vida social no centro, surgiram construções como o Palácio Avenida, inaugurado em 1929, que refletiam uma Curitiba cada vez mais integrada às tendências arquitetônicas e culturais internacionais.
Nas últimas décadas do século XX, o centro da cidade voltou a passar por intervenções que buscavam valorizar o espaço público e estimular a convivência urbana. Um dos exemplos mais emblemáticos desse período é a Rua 24 Horas, inaugurada em 1991 durante a gestão do prefeito Jaime Lerner. Concebida como uma galeria coberta que conecta duas importantes vias do centro, a proposta reunia comércio, serviços e gastronomia em um espaço pensado para permanecer ativo ao longo de todo o dia. À época de sua inauguração, tornou-se a primeira rua da América do Sul planejada para funcionar 24 horas, reforçando a ideia do centro como lugar de encontro, circulação e permanência.
Mais do que um ponto turístico, a Rua 24 Horas simboliza uma fase mais recente da história urbana de Curitiba, marcada por intervenções que buscavam revitalizar a área central e valorizar a experiência do pedestre na cidade.
Santa Casa de Misericórdia
Assim como acontece em muitas cidades brasileiras, a Santa Casa de Misericórdia foi testemunha de boa parte dos acontecimentos históricos. A poucos passos do NH Collection Curitiba, seguindo pela Rua Dr. Pedrosa, chega-se à Praça Rui Barbosa. Ali, em 1865, um imóvel adquirido pelo Ministério da Guerra tornou-se o Esquadrão da Guarnição Fixa da Província e o 2º Corpo de Cavalaria. Uma sequência de instalações militares estiveram ali ao longo dos anos até que, em 1975, os edifícios foram entregues à Prefeitura Municipal e transformados em um centro comercial. Posteriormente, em 1994, eles passaram por uma remodelação e se tornaram o que hoje é a Rua da Cidadania da Matriz. Em frente à praça está a Santa Casa, cujo edifício foi inaugurado em 1880 como o primeiro hospital da cidade e segue em funcionamento até hoje. Sua construção coincide com um momento de transformação urbana em Curitiba, quando a cidade começava a consolidar instituições públicas e estruturas urbanas típicas de uma capital em crescimento. “Do ponto de vista arquitetônico, o edifício apresenta características do ecletismo difundido no final do século XIX, combinando referências historicistas que remetem a linguagens medievais e neogóticas, perceptíveis nas torres, nos pináculos e na composição verticalizada da fachada. Essa arquitetura dialogava com o desejo de conferir monumentalidade e prestígio às novas instituições urbanas que surgiam naquele período” diz Sastre. Além disso, ali também funciona o Museu da História da Medicina do Paraná (MHMPR). A ideia é preservar a memória da saúde no estado com um acervo com mais de 3,5 mil peças. A visita ao museu é feita com agendamento prévio pelo site ou pelo e-mail.
Museu da Imagem e do Som do Paraná
A uma curta distância dali, andando algumas quadras pela Rua André de Barros (continuação da Rua Dr. Pedrosa) e virando à esquerda na Rua Barão do Rio Branco, encontra-se no número 395 o Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR). “A via tem importância histórica na configuração urbana de Curitiba: no final do século XIX, ela era conhecida como Rua da Liberdade e constituía o principal eixo de ligação entre a estação ferroviária e o centro da cidade” pontua o arquiteto. Antigamente o prédio abrigava o Palácio da Liberdade e foi adquirido pela União em 1890 para abrigar o então recém-nascido Governo do Estado. A construção do edifício reflete o momento de consolidação das estruturas administrativas da nova capital e a busca por uma arquitetura representativa para as instituições públicas. “Do ponto de vista arquitetônico, o edifício é um exemplo do ecletismo do final do século XIX. Projetado pelo engenheiro italiano Ernesto Guaita, apresenta inspiração renascentista italiana, visível em elementos como o embasamento rusticado, janelas em arco pleno e balaustradas ornamentais, que conferem ao conjunto uma aparência monumental e institucional”. Hoje, é Patrimônio Histórico e Cultural. “Além do edifício em si, que já é uma joia arquitetônica, o acervo do MIS-PR é muito rico. O museu foi criado em 1969 e é considerado o segundo mais antigo do gênero no Brasil. São mais de três milhões de itens, que vão desde discos de vinil e fitas cassete até projetores, rádios e câmeras fotográficas antigas”, pontua Willian. O museu funciona de terça a sexta, das 10h às 19h, e sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. A entrada é gratuita. Mais informações nas redes sociais do MIS-PR.
Sesc Paço da Liberdade
Saindo do MIS e subindo pela Barão do Rio Branco, depois de algumas quadras encontra-se a Praça Generoso Marques, que abriga o majestoso Sesc Paço da Liberdade. No início do século XX, a praça concentrava importantes funções administrativas e comerciais da cidade, consolidando-se como um dos principais pontos da vida pública curitibana. Sastre lembra que, construído em 1916 para ser a sede da Prefeitura, “o edifício reflete um momento de consolidação institucional e urbana da capital paranaense. Arquitetonicamente, apresenta características do ecletismo típico do período, combinando referências neoclássicas na organização da fachada com elementos decorativos influenciados pelo art nouveau, perceptíveis nas linhas curvas e nos ornamentos de inspiração vegetal”. Depois de ser cuidadosamente restaurado e tombado pelo IPHAN, o espaço transformou-se em um efervescente polo cultural. Hoje, os visitantes podem desfrutar de um café, livraria, biblioteca e exposições, além de observar amostras da pintura original e curiosos trechos do antigo sistema de escoamento de água sob os pisos de vidro. O Sesc Paço da Liberdade está aberto de terça a sexta, das 10h às 21h; sábados, das 10h às 17h45; domingos e feriados, das 11h às 17h. Mais informações sobre novidades e exposições pelo site.
Catedral de Curitiba
Logo adiante, na histórica Praça Tiradentes, considerada o marco zero e núcleo fundador da cidade, ergue-se a imponente Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais ou, simplesmente, Catedral de Curitiba. A paróquia original existia no local desde os primórdios da cidade, há mais de 333 anos, antes mesmo de sua fundação oficial. Embora a data de fundação da Paróquia Nossa Senhora da Luz dos Pinhais seja incerta, estima-se que sua criação coincida com a da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em 1668. O templo atual, projetado em estilo neogótico pelo francês Alphonse Conde Des Plas, começou a ser construído em 1876 e levou 17 anos para ficar pronto. Segundo o professor, “a escolha do neogótico seguia uma tendência internacional da arquitetura religiosa do período, inspirada nas grandes catedrais medievais europeias. Elementos como as torres verticais, os arcos ogivais e os vitrais coloridos reforçam a monumentalidade do edifício e marcam a presença simbólica da igreja no centro histórico da cidade”. Ele foi finalmente inaugurado em 1893. “Estar na Catedral de Curitiba é ser testemunha ocular de outros tempos e isso fica muito claro na visita. As torres, arcos ogivais e vitrais são impressionantes ainda hoje”, comenta o concierge.
Palácio Avenida
Descendo pela Rua Cândido Lopes e, depois, pela Ébano Pereira, rumo ao tradicional calçadão da Rua XV de Novembro, pouco antes de chegar à famigerada Boca Maldita, está o Palácio Avenida, cartão-postal inconfundível do Natal curitibano. É dessas janelas que dezenas de crianças cantam todos os anos, há 35 anos, nos festejos natalinos. Idealizado em 1927 pelo comerciante Feres Merhy e concluído em 1929, o edifício surgiu em um momento em que o centro da cidade se consolidava como o principal pólo comercial e cultural de Curitiba. Com 90 metros de fachada, o Palácio Avenida foi concebido como um edifício de uso misto. Modelo moderno para a época, abrigava espaços de entretenimento, como o Cine-Theatro Avenida, além de bares, lojas e escritórios. Arquitetonicamente falando, “o prédio representa um momento tardio do ecletismo na cidade. Sua fachada preserva elementos ornamentais inspirados na tradição clássica e barroca, mas já apresenta simplificações formais e certa geometrização dos detalhes decorativos de influência do art déco”, destaca Sastre. Após um período de abandono, foi comprado e restaurado a partir da década de 1970. O projeto de revitalização foi entregue em 1991 e preservou a volumetria e a linguagem eclética da fachada histórica, modernizando completamente o interior com vãos livres e instalações contemporâneas.
Praça Osório
O calçadão desemboca na Praça Osório, um verdadeiro oásis verde em meio à intensa dinâmica do Centro de Curitiba. Criada em 1878 inicialmente com o nome de Largo Oceano Pacífico, a praça surgiu em um momento de expansão urbana da cidade e passou a integrar um dos principais eixos de circulação do centro histórico. Ao longo do tempo, o espaço foi sendo sucessivamente remodelado, acompanhando as transformações urbanas da capital e hoje abriga cerca de 400 árvores de 46 espécies diferentes, servindo como uma área de respiro e contemplação. O paisagismo traz fortes referências francesas e do movimento art nouveau datadas de 1914, refletidas em seu belo chafariz e no icônico calçamento de petit-pavé com rosáceas paranistas, baseado no desenho de Lange de Morretes referência importante na construção da identidade cultural paranaense.
Rua 24 Horas
Para encerrar a exploração antes do retorno ao hotel, a poucos metros da praça está a icônica Rua 24 Horas. Inaugurada em 1991 na gestão do então prefeito Jaime Lerner, a galeria foi a primeira rua coberta a funcionar ininterruptamente na América do Sul, consolidando-se como um símbolo da vanguarda urbana de Curitiba. Embora hoje opere em horário comercial, o espaço passou por uma revitalização e segue como um vibrante ponto de encontro, unindo gastronomia, comércio e serviços turísticos.
“Mais do que um ponto turístico, a Rua 24 Horas simboliza uma fase mais recente da história urbana de Curitiba, marcada por intervenções que buscavam revitalizar a área central e valorizar a experiência do pedestre na cidade”, comenta Sastre. Assim, ao final desse percurso, percebe-se que caminhar pelo centro de Curitiba é também atravessar diferentes tempos da sua formação, das construções ecléticas do final do século XIX às propostas urbanísticas contemporâneas que ajudaram a consolidar a identidade da capital paranaense.
No fim das contas, cada rua, praça ou edifício visitado ao longo desse trajeto revela um capítulo da história local. E é justamente ao percorrer esses espaços a pé que Curitiba mostra, com mais clareza, como seu passado continua presente na paisagem urbana.
