Transição energética avança apesar das tensões globais

A transição energética segue avançando globalmente, mas passou a conviver com uma prioridade cada vez mais estratégica: a segurança energética. O atual cenário geopolítico tem levado governos e empresas a reequilibrar decisões, conciliando metas de descarbonização com a necessidade de garantir abastecimento e estabilidade no fornecimento de energia.

Segundo Élica Martins, sócia de auditoria e líder de energia e recursos naturais da Grant Thornton Brasil, o movimento não representa um retrocesso da agenda sustentável, mas uma adaptação às novas dinâmicas globais, como um amadurecimento. "A transição energética continua acontecendo, mas com uma abordagem mais pragmática. A segurança energética voltou ao centro das decisões", afirma.

Dependência do petróleo ainda influencia o ritmo da transição

Apesar do crescimento das fontes renováveis, representadas hoje em 50%, o petróleo continua desempenhando papel central na economia mundial. Além da geração de energia, o insumo permanece essencial para cadeias produtivas como as indústrias petroquímica e de plásticos. Para Élica, esse cenário torna a transição mais gradual e complexa. "Ainda não existe uma definição clara sobre qual será a principal fonte energética do futuro. O que vemos hoje é um movimento de diversificação das matrizes energéticas", explica.

Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos principais potenciais globais da transição energética, conforme o último Balanço Energético Nacional (BEN), emitido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Na matriz energética, o país já atingiu 50% de fontes renováveis; já na matriz elétrica, representa 88% de fontes renováveis no Brasil, uma das mais limpas do mundo, impulsionada principalmente pela força dos biocombustíveis, como o etanol, além de uma matriz relativamente limpa e diversificada. O país reúne vantagens estruturais relevantes, como disponibilidade de recursos naturais, forte capacidade agrícola e condições favoráveis para expansão de fontes como energia solar, eólica e bioenergia, consolidando sua posição estratégica no cenário internacional.

Investimentos avançam, mas infraestrutura segue como desafio

Apesar do crescente interesse de investidores internacionais em projetos de energia limpa no Brasil, o setor ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão o alto custo de implantação, o longo prazo de retorno financeiro e a dependência de incentivos governamentais. A percepção de risco também segue como um fator de atenção para investidores estrangeiros. "O Brasil atrai capital, mas ainda existe preocupação em relação à previsibilidade regulatória e econômica", avalia Élica.

Ao mesmo tempo, o avanço das energias renováveis amplia a necessidade de modernização da infraestrutura elétrica. Investimentos em transmissão, armazenamento e integração do sistema tornam-se cada vez mais necessários para acompanhar a expansão da geração.

Problemas como o curtailment — desperdício de energia gerada por limitações no escoamento — evidenciam os gargalos atuais do sistema. A expansão da geração distribuída também aumenta a complexidade da gestão energética. "Isso muda a forma como decisões são tomadas; tecnologias como baterias e soluções baseadas em inteligência artificial ganham relevância ao permitir maior eficiência na previsão de demanda e na gestão da oferta de energia", finaliza a executiva.

DINO