Crianças aprendem regras de trânsito em uma “mini cidade” montada dentro da escola
Uma pequena cidade, com cruzamentos, placas, sinalização e vagas de estacionamento, vai ocupar o pátio da Escola Willy Janz entre os dias 18 e 25 de setembro. No circuito “Minha Cidade, Meu Trânsito”, os alunos vivenciam situações reais das ruas, exercitando na prática a atenção, a segurança e o respeito ao outro. A iniciativa responde a uma preocupação latente de famílias e autoridades: cresce nas cidades o número de crianças e adolescentes circulando sobre duas rodas, muitas vezes sem qualquer orientação sobre as regras de circulação.
“A criança aprende de verdade quando vive a experiência. Ao parar no semáforo, dar passagem na faixa e respeitar o colega que vem pelo cruzamento, ela entende que as regras de trânsito existem para proteger as pessoas. É um aprendizado de cidadania que ela leva para a vida”, afirma André Ceruzi, diretor da Escola Willy Janz.
Trânsito é o acidente que mais mata crianças no Brasil
Os números explicam a urgência do tema. O trânsito é uma das principais causas de mortes por acidentes entre crianças e adolescentes de zero a 14 anos no Brasil, segundo levantamentos da ONG Criança Segura com base nos dados do Ministério da Saúde.
O problema segue em alta. Em 2025, 162 mil crianças e adolescentes de até 14 anos foram internados por acidentes no país. O trânsito aparece em terceiro lugar entre as causas, com 12,6 mil internações, metade delas na faixa dos 10 aos 14 anos, justamente a idade em que muitos começam a circular sozinhos de bicicleta e patinete. O relatório aponta ainda uma tendência de crescimento nas internações de crianças por acidentes: alta de 2,2% em 2024 e de 5,4% em 2025.
O Paraná está no centro dessa estatística. O estado é o terceiro do país em internações de crianças e adolescentes por acidentes, com 10.708 casos em 2025, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.
O cenário ganhou um ingrediente novo nos últimos anos. Autoridades de trânsito e profissionais da saúde registram um crescimento preocupante no número de acidentes com patinetes e motos elétricas, principalmente entre adolescentes, com ocorrências que vão de quedas com fraturas leves a colisões graves com carros e pedestres.
Educação desde a infância está na lei, mas pouco sai do papel
Para Jefferson Johannes Roth, empresário do setor de autoescolas há mais de 30 anos, o problema começa muito antes da primeira habilitação. “Recebemos na autoescola jovens de 18 anos que nunca tiveram contato com noções básicas de trânsito. Eles precisam aprender em poucos meses o que deveriam ter construído desde a infância. Quando a criança entende cedo o que significa um semáforo ou uma faixa de pedestres, ela chega ao volante com outra consciência”, avalia.
Roth lembra que a educação para o trânsito nas escolas é uma obrigação legal antiga. O artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro, em vigor desde 1997, determina que o tema seja trabalhado de forma contínua, da educação infantil ao ensino médio. Na prática, porém, o conteúdo ainda é tratado de maneira pontual, superficial ou simplesmente não aparece na sala de aula. “Iniciativas como a da Willy Janz mostram que é possível cumprir esse papel de um jeito lúdico e eficiente. A criança de hoje é o pedestre, o ciclista e o motorista de amanhã”, completa.
Durante o circuito, os alunos se revezam nos papéis de condutores e pedestres. Eles precisam respeitar o semáforo, parar na faixa, observar as placas e estacionar nas vagas demarcadas. Segundo Ceruzi, a proposta também trabalha valores. “Mais do que decorar placas, queremos formar crianças que enxergam o outro. Empatia e respeito se ensinam desde cedo, e o trânsito é um espaço poderoso para isso”, diz o diretor.
A ação da escola dialoga com o espírito da campanha da Semana Nacional de Trânsito 2026, que acontece de 18 a 25 de setembro, e mantém a mensagem “Desacelere. Seu bem maior é a vida”, definida pelo Conselho Nacional de Trânsito, para reforçar a redução de velocidade e a preservação da vida como prioridade.
