Do sucesso profissional ao burnout: quando o trabalho adoece
Do sucesso profissional ao burnout: quando o trabalho adoece
Aos 48 anos, advogado deixou o cargo de diretor para recuperar a saúde; benefícios por esgotamento somaram R$ 25,5 milhões em 2025 no Brasil

Durante quase 25 anos, Adailton Alves Maciel Junior construiu a carreira que imaginava para a vida. Advogado, chegou ao cargo de diretor de uma empresa e acreditava que o sucesso profissional e financeiro compensaria as horas longe da família. Até que a rotina profissional, que por tanto tempo foi motivo de realização, começou a provocar sintomas que ele já não conseguia ignorar.
Picos de pressão, ansiedade, cansaço mental, procrastinação e dificuldade de concentração passaram a fazer parte da rotina. Mesmo assim, resistiu à ideia de procurar ajuda. Achava que era fraqueza. Em vez disso, passou a organizar festas em casa. “Com a casa cheia e o copo na mão, não havia espaço para as conversas difíceis. Parecia celebração, era fuga”, revela. Só procurou uma psiquiatra por insistência de um amigo médico. Foi quando recebeu o diagnóstico de burnout.
O caso está longe de ser isolado. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que foram concedidos 5.979 benefícios relacionados à Síndrome de Burnout em todo o Brasil em 2025, com um impacto financeiro de R$ 25,5 milhões. No primeiro semestre de 2026, foram 3.598 benefícios, que somaram R$ 18,5 milhões. No Paraná, foram 248 benefícios em 2025, no valor de R$ 1,05 milhão, e outros 139 entre janeiro e junho deste ano, correspondentes a cerca de R$ 624 mil.
De acordo com a médica psiquiatra Juliana Brum, o burnout é uma condição de estresse crônico relacionado ao trabalho. A 11ª revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11) descreve três características centrais: sensação de exaustão, distanciamento psicológico do trabalho e percepção de queda da eficácia profissional. Insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, ansiedade, dores de cabeça, tensão muscular e procrastinação também podem estar associados ao quadro.
Um dos desafios, segundo Juliana, é que nem sempre o profissional consegue perceber que está adoecendo. “Pessoas que veem o trabalho como missão de vida se questionam se são fracas ou se, de fato, estão em um ambiente abusivo”, explica. Sobrecarga persistente, pressão excessiva, pouco reconhecimento, conflitos de valores, relações difíceis e a impossibilidade de se desconectar estão entre os fatores que podem contribuir para o adoecimento.
Foi justamente a dificuldade de se desconectar da profissão que marcou a trajetória de Maciel. “Eu conseguia dormir, mas acordava com a sensação de não ter descansado”, lembra. Durante dois anos, tentou tratar o problema apenas com terapia. Até que recebeu da psiquiatra um alerta decisivo: continuar naquele ritmo, iniciar tratamento medicamentoso ou deixar a carreira e recomeçar.
Ele escolheu mudar de vida. Pediu demissão e foi para o litoral com a esposa, que se tornou seu principal apoio durante a recuperação. Os dois abriram um pequeno restaurante. Ela cozinhava e ele trabalhava como garçom. A experiência o fez perceber que sua identidade não precisava estar ligada à posição que ocupava. Mais tarde, Maciel tornou-se sócio da empresa em que trabalha atualmente, no setor da beleza. Retomou as corridas, continuou a terapia e passou a olhar para a própria trajetória de outra maneira. “Comecei a enxergar o Adailton novamente”, descreve.
A psiquiatra explica que não existe uma medicação específica para burnout. O tratamento pode incluir psicoterapia, controle dos sintomas associados, hábitos de vida saudáveis, descanso, lazer, vínculos sociais e estratégias para estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal.
Crise de saúde mental
A médica do trabalho e psiquiatra Letícia Mameri Trés, colaboradora do departamento científico da Associação Nacional da Medicina do Trabalho (ANAMT), explica que o sofrimento mental relacionado ao trabalho está crescendo ao mesmo tempo em que os casos também estão sendo mais reconhecidos e diagnosticados. Ainda existe, porém, uma parcela que não aparece nas estatísticas, formada por pessoas que continuam trabalhando mesmo com exaustão, insônia, irritabilidade e queda de rendimento.
A especialista destaca que, hoje, existe uma compreensão mais clara de que o burnout é um fenômeno ligado ao trabalho. A avaliação precisa considerar a história do trabalhador, a organização do ambiente, a jornada, a relação com a liderança, a sobrecarga, o assédio e outros fatores psicossociais. “Ficou mais difícil olhar para esse adoecimento como se fosse apenas uma fragilidade individual”, afirma.
Hoje, Maciel se sente preparado para falar sobre o período que durante muito tempo preferiu esconder. Sua trajetória deu origem ao livro autobiográfico Burnout: Fim ou Novo Começo, que será lançado no dia 24 de setembro, às 19 horas, na Biblioteca Pública Municipal de Londrina. Para ele, compartilhar a própria história é uma forma de alcançar quem ainda pode estar tentando suportar sozinho uma rotina que já ultrapassou os próprios limites.
Serviço:
Lançamento do livro Burnout: Fim ou Novo Começo
Data: 24 de setembro
Horário: 19 horas
Local: Biblioteca Pública Municipal de Londrina
Aberto ao público
