Passeio de trem é ferramenta pedagógica em congresso que debate o futuro da aprendizagem no Brasil
Em um momento em que especialistas discutem os limites da aprendizagem tradicional e os impactos do excesso de telas, da hiperconectividade e da educação cada vez mais acelerada, um congresso internacional realizado em Curitiba propõe um caminho pouco convencional para refletir sobre o futuro da educação: transformar um passeio de trem em ferramenta pedagógica.
A proposta faz parte da programação do VII Congresso Internacional “Um Novo Tempo na Educação”, promovido pelo Instituto Casagrande entre os dias 10 e 12 de junho. O evento reunirá educadores, pesquisadores, gestores públicos, prefeitos, secretários municipais de educação e especialistas de diferentes regiões do país para discutir temas como aprendizagem, inteligência artificial, saúde emocional, neuroeducação, inclusão e inovação pedagógica.
Entre as atividades que mais chamam atenção na programação está a “Travessia de Sentidos”, experiência imersiva que utiliza a viagem ferroviária entre Curitiba e Morretes, pela Serra do Mar paranaense, como instrumento de reflexão sobre aprendizagem, percepção, cultura, memória e construção de significado fora dos espaços tradicionais de ensino.
Mais do que uma atividade turística, a proposta surge como um símbolo do próprio debate central do congresso: a aprendizagem acontece apenas dentro da sala de aula?
Para Ronaldo Casagrande, vice-presidente do Instituto Casagrande, o desafio contemporâneo da educação passa justamente pela ampliação do conceito de aprendizagem. “A escola precisa compreender que aprender vai muito além da transmissão de conteúdo. A aprendizagem acontece nas experiências, nas relações humanas, no território, na arte, na cultura, na observação e nas vivências que despertam emoção e significado”, afirma.
A Travessia de Sentidos foi criada justamente para provocar esse olhar. Durante o percurso ferroviário, considerado um dos mais belos do mundo, os participantes serão convidados a refletir sobre educação sensorial, repertório cultural, contemplação, memória afetiva e construção de conhecimento a partir da experiência concreta. O roteiro inclui paisagens da Mata Atlântica, patrimônio histórico, gastronomia regional e atividades culturais integradas à proposta pedagógica do congresso.
Segundo Ronaldo Casagrande, iniciativas como essa dialogam diretamente com discussões atuais da neuroeducação e das metodologias ativas, que defendem experiências significativas como elementos fundamentais para consolidar aprendizagem profunda e duradoura.
“O conhecimento não pode ser reduzido apenas à repetição de informações. Quando uma experiência desperta emoção, curiosidade, repertório e conexão humana, ela potencializa o aprendizado de uma forma muito mais profunda”, destaca.
A atividade também busca ampliar o repertório de professores, gestores públicos, prefeitos e lideranças educacionais que participam do congresso, oferecendo novas perspectivas sobre o papel dos espaços culturais, urbanos e ambientais no desenvolvimento educacional.
“O educador precisa viver experiências que também o transformem. Quando um professor amplia seu repertório cultural e humano, isso impacta diretamente sua prática pedagógica e sua capacidade de inspirar os estudantes”, afirma Ronaldo Casagrande.
Muito além do destino: Quando o caminho também ensina
Durante cerca de quatro horas de percurso, os participantes serão convidados a viver uma experiência rara nos tempos atuais: desacelerar, desconectar-se das telas e mergulhar em uma jornada de contemplação, escuta e presença. A travessia ferroviária pela Serra do Mar Paranaense percorre quase 70 quilômetros entre pontes, túneis, montanhas e paisagens preservadas da Mata Atlântica, em um cenário onde natureza, história e experiência sensorial se fundem em uma profunda conexão humana e educativa.
Ao longo do trajeto, guias especializados acompanham os participantes compartilhando histórias, curiosidades e marcos da construção da ferrovia Curitiba-Paranaguá, considerada até hoje uma das maiores obras de engenharia ferroviária do mundo. Mais do que uma viagem, a experiência se transforma em uma imersão cultural, histórica e emocional, permitindo que cada participante perceba o território como espaço de aprendizagem viva.
Para Adonai Arruda Filho, diretor geral da Serra Verde Express, a proposta dialoga diretamente com os desafios contemporâneos da educação. “Vivemos em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, pela velocidade e pela hiperconectividade. Essa travessia oferece justamente o contrário: um convite à presença, à contemplação e à experiência profunda. O percurso de trem tem tudo a ver com educação porque ensina pelo sentir, pela observação, pela convivência e pela conexão com a história, com a natureza e consigo mesmo”, afirma.
Entre algoritmos e relações humanas: os novos desafios da aprendizagem
O congresso acontece em um contexto em que especialistas vêm alertando para os impactos do excesso de estímulos digitais sobre atenção, concentração e relações humanas. Em meio ao avanço da inteligência artificial e da automatização do ensino, cresce dentro do setor educacional a defesa de experiências mais humanas, sensoriais e conectadas ao território.
Essa discussão aparece de forma transversal em toda a programação do evento, que contará ainda com painéis sobre inteligência artificial na educação, alfabetização, saúde emocional, inclusão, avaliação, gestão pública e inovação pedagógica. Entre os convidados confirmados estão o ex-ministro da Educação Cristóvam Buarque e o escritor Fabrício Carpinejar, que abordará temas ligados à escuta, comportamento e relações humanas.
Além da Travessia de Sentidos, a programação inclui o roteiro “Curitiba como Sala de Aula”, experiência urbana que utiliza espaços públicos, culturais e arquitetônicos da capital paranaense como ferramentas pedagógicas para discutir cidadania, planejamento urbano e educação fora dos ambientes convencionais.
Para Ronaldo Casagrande, a proposta do congresso é justamente ampliar o debate sobre o futuro da educação em um mundo marcado pela velocidade da informação e pela crescente digitalização da vida cotidiana.
“Estamos vivendo uma transformação profunda na forma como as pessoas aprendem, se relacionam e percebem o mundo. O congresso nasce para discutir exatamente isso: como construir uma educação mais humana, significativa e conectada com a realidade contemporânea”, afirma.
Segundo os organizadores, um dos principais objetivos do encontro é fortalecer um ecossistema colaborativo entre professores, municípios, pesquisadores e instituições, promovendo experiências que ultrapassem os modelos tradicionais de ensino e ampliem a compreensão sobre aprendizagem no século XXI.
“A educação precisa voltar a provocar encantamento, curiosidade e conexão humana. Quando conseguimos transformar uma experiência em memória, reflexão e construção de sentido, estamos diante de uma aprendizagem verdadeira”, conclui Ronaldo Casagrande.
Mais informações e programação completa podem ser acessadas em: www.congressonovotempo.com.br.
Sobre o Instituto Casagrande
O Instituto Casagrande é uma instituição brasileira dedicada à formação continuada de educadores, ao desenvolvimento de lideranças educacionais e à construção de soluções para redes públicas e privadas de ensino. Com quase duas décadas de atuação, reúne uma das maiores comunidades de educadores do Brasil, com mais de 1 milhão de profissionais impactados por formações, eventos, cursos e programas. Sua atuação integra conhecimento técnico, produção autoral, presença digital, eventos de grande alcance e projetos customizados para diferentes realidades educacionais
