Governança tem papel decisivo na sobrevivênciade empresas em cenários de instabilidade econômica
Em meio à instabilidade econômica, episódios recentes envolvendo as Lojas Americanas, Polishop, Bombril e, em 2026, o Banco Master, evidenciam como falhas na governança corporativa podem impactar diretamente a tomada de decisões e comprometer a sustentabilidade dos negócios. Os casos reforçam o papel estratégico dos conselhos de administração, especialmente em momentos de crise.
Em janeiro, em caso de ampla repercussão, as Americanas anunciaram inconsistências contábeis que resultaram em um rombo financeiro de R$ 20 bilhões. A revelação provocou uma forte queda nas ações e aumentou a insegurança entre investidores, colaboradores e o mercado. Apenas no segundo semestre de 2025 a empresa apresentou sinais de recuperação, com redução de 92,5% do prejuízo. Segundo o CEO Fernando Dias Soares, a reestruturação estratégica foi um dos principais fatores para a melhora dos resultados. Polishop e Bombril enfrentaram situações semelhantes, com pedido de recuperação judicial em 2024 e 2025, respectivamente.
O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, após investigações revelarem uma fraude financeira bilionária e insolvência. A instituição, que cresceu rapidamente oferecendo CDBs com taxas muito acima da média (até 150% do CDI), tornou-se o centro de um dos maiores escândalos financeiros recentes no Brasil.
Atuação dos conselhos
Para Yoshio Kawakami, sócio-fundador da RAIZ Consultoria e membro da Confraria de Conselheiros e Governança de Curitiba, empresas em risco econômico precisam revisar suas estratégias e, em determinados casos, contar com conselhos mais atuantes. “Em processos de reestruturação, é possível observar conselhos com atuação mais próxima da operação, como no caso da Americanas, com ajustes importantes no digital, incluindo entregas e retiradas em loja”, afirma.
O especialista destaca que, em cenários críticos, essa atuação tende a se intensificar. “Quando a empresa é impactada por instabilidade econômica, torna-se necessário revisar a estratégia e, eventualmente, atuar de forma mais operacional para mitigar riscos e proteger o negócio”, explica.
Além de orientar decisões em momentos adversos, os conselhos desempenham papel fundamental na identificação de riscos futuros. Para Bianca Scarpellini, diretora executiva do Conselho de Família da WPA, fundadora da BS Scarpellini Consultoria e também participante da Confraria de Conselheiros e Governança, o valor do conselho está na qualidade das decisões. “O conselho não executa, ele qualifica, tensiona e sustenta decisões. As empresas não quebram apenas por falta de caixa, mas por decisões mal calibradas”, diz.
Entre os principais indicadores que devem ser monitorados em períodos de instabilidade estão geração de caixa, liquidez, endividamento, perfil da dívida, margens operacionais, inadimplência, eficiência operacional e retenção de talentos. Aspectos como clima organizacional, reputação e governança de stakeholders também ganham relevância.
Na prática, os conselhos apoiam diretamente a gestão de riscos ao definir limites de alçada, estabelecer níveis aceitáveis de exposição, coordenar cenários e estruturar planos de contingência. Mais do que isso, ajudam a promover um ambiente de transparência e agilidade na tomada de decisão. Bianca Scarpellini entende que o conceito de governança evoluiu. “Governança eficiente não é a que controla mais, mas a que permite decisões rápidas com segurança”, complementa.
Nesse contexto, a governança deixa de ser apenas uma estrutura formal e passa a representar um diferencial competitivo. Em um ambiente econômico incerto, empresas com conselhos atuantes e estratégicos tendem a responder melhor às adversidades e a sair delas mais fortalecidas.
Sobre a Confraria
Fundada em 2025, a Confraria de Conselheiros e Governança é composta por 40 líderes empresariais e é voltada ao networking, fomento da governança corporativa e à formação e estruturação de conselhos consultivos e de administração nas empresas.
